Entrevistas


13 Nov 2020

Bloco na rua

E de repente, o mundo parou. A pandemia adiou sonhos, congelou projetos e nos obrigou a reinventar a forma de produzir e consumir cultura e entretenimento. Emanuelle Araújo lançou, em fevereiro deste ano, o álbum "Quero viver sem grilo - uma viagem a Jards Macalé". E quando se preparava para iniciar os shows com este novo trabalho, veio a necessidade de se manter o isolamento social.

É claro que, como a maioria dos artistas dizem, nada substitui um show ao vivo e a sensação de ter o público vibrando, ali pertinho. Mas Emanuelle vai enfim conseguir dar o pontapé em sua turnê. O formato ainda é o remoto, pois as pessoas poderão assistir o show de suas casas. Mas ela vai poder sentir o gosto de entrar em um estúdio e cantar ao vivo com sua banda.

O show será gravado em São Paulo, em um estúdio escolhido a dedo pela cantora, para que a qualidade do som seja a prioridade. A transmissão será no Youtube e acontecerá no dia 21 de novembro, às 20h. A venda de ingressos está disponível no Sympla (link). 


Qual é o sentimento de realizar um show após todo esse tempo? 

Uma grande alegria. Mesmo ainda sendo em um formato remoto, é a primeiro vez que entro em um estúdio após todo esse tempo, para ensaios e realização de um show com músicos. Os ouvidos parecem mais aguçados, e é imenso o prazer de cantar com meus parceiros da música, ouvindo o timbre dos instrumentos de perto.

E como é levar para o público as canções de seu último álbum? 

Este trabalho tem grande importância pra mim. Reverenciar  a obra do Jards Macale é um sonho antigo. Lancei o disco no dia 7 de fevereiro, e tive que cancelar os shows que começariam em meados de março, foi uma grande frustração. Mas, ao mesmo tempo, parecia que a poesia do Macalé fazia mais sentido diante de todas as incongruências desse período pandêmico. Sua poesia fala da dor, das profundezas dos sentimentos, e joga luz em tudo isso. Agora é cantar ao vivo essas músicas para que o público possa ouvir, mesmo que do sofá de casa.


Você é cantora e tambem atriz. Com uma presença forte no cinema. Como avalia sua trajetória na sétima arte? 

Eu amo fazer cinema. Fechei 2019 rodando um filme e comecei 2020 trabalhando em outro. Todo o universo da produção me fascina, do dia a dia de filmagens até o resultado na telona. Começo 2021 com as filmagens de um novo longa, “ O Meu sangue ferve por você", dirigido por Paulinho Machline. É uma história sobre o amor de Sidney Magal e sua esposa, Magali. Eles se conheceram quando ela ainda era adolescente, e eu faço a mãe da Magali - que não era muito contente com o romance. É uma comédia musical e estou animadíssima.

São quantos filmes para estrear? 

Eu tenho 3 filmes para serem lançados: "O Barulho da noite", de Eva Pereira; "Juntos e enrolados", de Rodrigo Vanderput e Eduardo Vaisman; "Diário de Intercâmbio", de Bruno Garoti: e "O Meu Sangue Ferve por Você", de Paulo Machline - sendo que este último ainda está em produção.

Você tem ainda um espetáculo para o próximo ano, correto? 

Sim, em abril começaremos os ensaios do espetáculo musical da Broadway, “ Chicago”. A produção foi adiada devido à pandemia, e retomar esse trabalho será uma grande alegria. Apesar de ser cantora e atriz, Chicago será o meu primeiro musical, e me instiga muito viver essa personagem arrebatadora que é a Velma Kelly. A estreia está prevista para junho . 

Você será musa do Bola Preta. Como recebeu esse convite, ainda mais num ano tão incerto para o carnaval?

Estou muito feliz com este convite do Cordão da Bola Preta. Este é o bloco de maior tradição  do carnaval carioca, é nosso patrimônio cultural. Já canto na folia deles há dois anos, e agora ser da corte real do bloco me deixa muito feliz e orgulhosa. O Bola é símbolo de cultura e resistência. Inclusive está com uma campanha de doações importante para os profissionais do carnaval impactados pela pandemia. O link está na redes do bloco. Estou ansiosa para que possamos chegar a uma vacina, sem jogatinas políticas para que possamos botar nosso bloco na rua.

Foto: Reprodução. Siga o insta @sitealoalobahia 

1 Nov 2020

Cresce 98% o número de pesquisas por transtornos mentais na internet

A saúde mental das pessoas está pedindo socorro. Essa é a constatação de uma preocupação silenciosa, mas bastante preocupante, que se emerge em meio a pandemia: cada vez mais pessoas estão buscando informações sobre transtornos mentais na internet.

Recentemente, o jornal “Estado de São Paulo” publicou que o Google notificou o aumento de 98% das buscas por temas sobre transtornos mentais. São quase 8 meses que muitos se isolaram pela pandemia e é possível constatar que a maioria das pessoas sofreu mudanças radicais em suas rotinas.

Síndromes mentais invadem 2020 com a força de um ciclone. Essa afirmação é do neurocientista e psicanalista luso-brasileiro Fabiano de Abreu, que conversou com o Alô Alô Bahia sobre o tema. 

Quadros de ansiedade, depressão e pânico aumentaram em todo o planeta, e no Brasil não foi diferente. Como e por que isso aconteceu?
A pandemia atravessou fases. A primeira delas foi o fator surpresa e o medo do contágio, que nos levou ao distanciamento social para prevenir a disseminação do vírus, logo em seguida veio o medo da quebra da economia e de não conseguir viver com dignidade”, enumera Abreu. Esses fatores se somaram aos longos períodos de confinamento e convivência familiar, com as crianças sem poderem ir à escola, tendo aulas online. Logo surge também a preocupação sobre o ano escolar dos filhos, se de fato estão aprendendo como devem. 

Você acha que esse aumento na busca por transtornos mentais na internet prova que a pandemia veio para acentuar os problemas já existentes na sociedade? 
Antes do vírus aparecer, as nossas vidas já estavam muito atribuladas, a saúde mental já vinha sendo discutida por conta do aumento dos índices de depressão no mundo todo. O que mudou é que o estado constante de alerta alcançou níveis insuportáveis para milhões de pessoas e começaram a falar sobre isso muito mais intensamente. Além disso, o adoecimento mental, psicológico e emocional foi revelado, nos deixando a mercê de síndromes que até então pouco líamos a respeito, só se tivesse afetando a nós de alguma maneira ou aos nossos parentes e amigos próximos.

Quais foram os prejuízos do isolamento para a saúde física e mental?
As pessoas estão mais sedentárias, não se preocupam em receber boas doses diárias oriundas do sol, de vitamina D e, por causa da perda do convívio social, estão cada vez mais deprimidas, ansiosas e com insônia. Sendo assim, acabam procurando muito mais por assuntos sobre transtornos nas páginas de busca na internet.

A internet também está tendo um papel importante na divulgação de informações e compartilhamento de experiências. Não é?
Sim. Globalmente uma grande dor está sendo compartilhada, inclusive por quem nunca havia sentido qualquer problema semelhante antes. Assim, a importância de estarmos organizados mentalmente refletiu em nossa rotina de forma direta, pois os conteúdos internos começaram a emergir sem filtros, atravessando o comportamento e nos limitando as ações práticas. O que era interno e invisível passou a ser externo e visível. Basicamente, agora estes problemas vieram à tona, a pandemia jogou luz a assuntos que estavam embaixo do tapete.

Isso quer dizer que nós, seres humanos - independentemente da pandemia - ainda temos que trabalhar muito a inteligência emocional?
Os que buscaram desenvolver os seus recursos internos emocionais estão sabendo lidar melhor com a situação atual. Não é possível ter saúde sem que a mente esteja sã, portanto deverá haver uma percepção maior da importância do psicológico, do emocional com a saúde em dia. Todos verão que uma vida de qualidade se faz urgente. O nosso código genético não está pronto para mudanças tão abruptas. Nascemos para sobreviver e estamos utilizando instintos para a sobrevivência, como a ansiedade, por exemplo, para variadas metas de curto prazo que nos viciaram e nos tornaram dependentes em dopamina (hormônio da recompensa). Ele serve apenas como uma motivação natural para nos impulsionar a conquistas para a própria sobrevivência, mas hoje está sendo canalizado em vários aspectos desnecessários.

Foto: Divulgação / MF Press Global. Siga o Insta @sitealoalobahia.

30 Oct 2020

Luis Martins lança primeiro trabalho audiovisual com canções autorais

O cantor Luís Martins lança nesta sexta-feira (30) seu primeiro trabalho audiovisual intitulado 'Sonho Live', homenageando a música popular brasileira.

Produzido pela Arroz de Hauçá, o projeto inclui canções autorais e novos arranjos para clássicos de Caetano Veloso e Chico Buarque e também conta com projeção mapeada de 180º, além de uma diversidade de instrumentos.

Em entrevista ao Alô Alô Bahia, Luís conta detalhes sobre a proposta do álbum, suas principais influências, além de processo de produção. Confira!
 
Alô Alô Bahia: Como surgiu sua relação com a música e qual foi a principal motivação para a criação deste projeto?
 
Luís Martins: Tenho no meu histórico de vida um pai sanfoneiro e admirador da música. No contexto em que vivi a música e os livros era convivência obrigatória. Com a consolidação do meu primeiro negócio, não tive dúvida da minha nova caminhada. Sonho Live surge como compilado dos meus dois álbuns e um single, tínhamos uma agenda de shows para esse ano, com a pandemia abriu-se um hiato onde não nos permitiu a seguir com a nossa turnê. Não aderindo as lives, desenvolvemos com a equipe um projeto que traduzisse a realidade do palco para todos. Nesse momento chamo a banda e começamos os ensaios que duraram 20 dias. Seguimos todas as normas de segurança e gravamos esse novo álbum audiovisual.
 
AAB: Quem são as suas principais referências no mundo da música?
 
LM:Chico Buarque, Caetano Veloso, Cartola, Noel Rosa, Dominguinhos e meu pai.
 
AAB: Como se deu a escolha do repertório?
 
LM: Sonho Live é um compêndio dos dois álbuns e um single anteriormente lançados. E de algumas músicas de outros compositores que quis homenagear e já apresentei em alguns shows.
 
AAB: Qual é a principal mensagem que esse projeto busca transmitir ao público?
 
Mediante a inserções de culturas diversas esse projeto traz o que temos de melhor, que é a essência das nossas raízes. Por isso, retratamos o baião, o samba, o samba-chula, a bossa e a valsa. Também trazendo elementos rítmicos que compõe a nossa música popular, como: o prato, o agogô, a cuíca.
 
Foto: Divulgação. Siga o insta @sitealoalobahia.

1 Oct 2020

Maior Assessoria de M&A do Brasil desembarca em solo baiano

Neste último mês de setembro, o empresário Sérgio Costa selou acordo para fixar a bandeira da Studio Brokers em território baiano. A rede especializada em M&A (fusões e aquisições) do grupo Studio, assessoria empresarial de origem gaúcha com maior capilaridade operacional do país, também atua nas áreas fiscal, contábil, energia, agro e societária.

O Alô Alô Bahia conversou com Sérgio sobre este ambicioso projeto que promete aquecer o mercado baiano através do estreitamento de relações com grandes fundos nacionais e estrangeiros de private equity e venture capital. De olho!

Nos conte um pouco sobre a Studio Brokers. De que forma a empresa pretende contribuir com o empresariado baiano?
A Studio Brokers é o braço de fusões e aquisições do Grupo Studio, assessoria empresarial com mais de 6 mil clientes e 1000 escritórios espalhados pelo país. Nossa missão é ajudar a movimentar a economia do estado apoiando as empresas locais, estreitando o relacionamento com os principais fundos de investimentos do país e auxiliando os empresários com ferramentas capazes de otimizar indicadores com foco não apenas em equity como estratégia de saída, mas também no planejamento sucessório e em expansões no buy side.

O que é e como funciona um processo de M&A?
Em linhas gerais, primeiramente realizamos uma avaliação da empresa (valuation) para alinharmos expectativas. Posteriormente, ocorre o que chamamos de "Roadshow", que é uma "ida a mercado" para apresentar o ativo aos potenciais investidores. Essa etapa é realizada de forma anônima, sem permitir a identificação do cliente, visando proteger o mesmo. Em seguida, é assinado um contrato de confidencialidade e entramos em fase de negociação, que inclui discussões de valuation, ofertas, due diligence e contratualizaçãoda compra.

Quais setores e perfis de empresas que podem se beneficiar da assessoria de M&A oferecida pela Studio Brokers?
Via de regra, qualquer empresa pode se beneficiar. Dependendo do setor, os valuations podem estar "mais esticados" devido às expectativas e concorrência por bons ativos. É o que acontece em setores como Saúde, Educação e Alimentos atualmente. 

Você mencionou que, além das operações de venda de equity, a Studio Brokers também auxilia as empresas no processo de expansão e planejamento sucessório. Conte-nos um pouco sobre essas duas alternativas para os empresários que não pretendem se desfazer por completo de seus respectivos negócios.
Nossa capilaridade é inigualável no mercado de M&A: praticamente não existe empresa no Brasil a mais de 200km de um escritório do Grupo Studio. Isso traz vantagens para a atividade de expansão através de aquisições, pois conseguimos identificar e nos aproximarmos das melhores oportunidades com muita rapidez. O planejamento sucessório é um serviço intimamente ligado a atividade de M&A: um dia os ativos construídos pelo empresário deverão ser passados para seus herdeiros. Especialmente num país com excesso de impostos como o Brasil, é vital que esse movimento seja minuciosamente planejado para evitar contratempos e custos desnecessários.

Como se encontra o mercado de M&A diante do cenário de pandemia que vivemos atualmente?
Naturalmente o setor foi impactado pois muitos investimentos foram colocados "on-hold" até que o cenário fique menos incerto. O número de fusões e aquisições está 17% menor que do ano passado, no entanto, a tendência é que com o horizonte se aclarando o mercado recupere essa redução.

De que forma a desaceleração econômica provocada pelas restrições impostas pelo coronavírus pode afetar o valuation das empresas? 
Os valuations estão desconsiderando o ano de 2020 das bases de projeções. Foi um ano completamente atípico e seria injusto usar ele como base de precificação, e os investidores estão cientes disso.

O que espera da retomada de crescimento da economia no cenário de pós-pandemia? Quais oportunidades se apresentam para as empresas baianas na atual conjuntura? 
Muitos investimentos foram pausados durante a pandemia e, ao mesmo tempo, diversas reformas econômicas pró-economia vem sendo discutidas no congresso. A tendência é vermos um movimento muito grande de dinheiro se movimentando para o Brasil no pós-pandemia e, naturalmente, a Bahia, como um dos principais estados, é um dos alvos. E nós vamos estar aqui para trazer as melhores oportunidades para o estado.

Qual a projeção das regiões mais beneficiadas?
A Bahia é um estado muito grande, repleto de oportunidades, com muitas empresas "fora do radar" de fundos de private equity e consolidadores. Nosso foco vai ser contribuir para a pavimentação de um caminho de investimentos no estado: de Juazeiro até Mucuri, de Luís Eduardo Magalhães até Salvador.

Foto: Divulgação. Siga o Insta @sitealoalobahia.

17 Sep 2020

Diretor do Instituto Cervantes fala sobre relações entre Brasil e Espanha e revela planos para o pós-pandemia

O diretor do Instituto Cervantes de Salvador, Daniel Gallego Arcas, acredita que a retomada do turismo entre Brasil e Espanha será lenta e feita com muita cautela devido à pandemia do novo coronavírus. Contudo, após esta fase mais crítica, ele opina que "a recuperação será espetacular, pois as pessoas depois do confinamento vão querer viajar, se a economia permitir".
 
Na capital baiana desde o ano passado, Daniel Gallego chegou ao Brasil em 2011 e conhece bem as semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e espanhola. Nesta entrevista ao Alô Alô, ele fala sobre estas relações culturais entre os dois países, conta sobre suas origens na Espanha e relata como foi passar a pandemia em Salvador. "A preocupação com a saúde de amigos e família tornou-se algo bastante real naquele momento", diz.
 
Além disso, ele também fala sobre os planos para o Instituto Cervantes com a retomada das atividades em Salvador. Por enquanto, o instituto mantém sua programação de maneira virtual e, agora em setembro, terá programação para celebrar o Dia Europeu das Línguas e, em dezembro, uma Mostra de Cinema Argentino, que contará com uma seleção de variados e premiados filmes da recente e exitosa produção daquele país.
 
Sob uma perspectiva individual, como você avalia a relação Brasil-Espanha, sobretudo nos aspectos econômicos?
 
Um espanhol ao mudar-se para o Brasil por motivos profissionais, a primeira ideia que vem à cabeça é: um país grandioso - o principal mercado latino-americano e com uma das economias emergentes mais destacadas no mundo. Tanto as relações culturais como as econômicas com a Espanha sempre têm sido muito intensas, e nas últimas décadas, vêm evoluindo muito fortemente. Estas relações não se baseiam apenas na presença de uma importantíssima colônia de espanhóis e descendentes na região Nordeste.
 
A Espanha é o terceiro investidor direto estrangeiro no Brasil, depois dos Países Baixos e Estados Unidos. São muitos os que ainda desconhecem este fato, e se surpreendem profundamente ao descobrir a grande aposta que as empresas espanholas fazem há mais de um quarto de século na quinta potência mundial em tamanho e população e nona economia do mundo.
 
No ano passado, a União Europeia apresentou um estudo sobre a presença no Brasil das empresas europeias, no qual mostrava que geravam cerca de 250 mil postos de trabalho. Pois bem: mais de dois terços destes postos de trabalho foram gerados graças a empresas espanholas, contemplando assim o Brasil como uma extensão de sua atividade produtiva. Algumas dessas empresas são: Aena, Santander, Acciona, ACS, Iberdrola, Siemens-Gamesa, CAF, Roca, Telefónica, Estrella Galicia, Fini.
 
 
 Para além da similaridade da língua, como povos latinos, temos uma relação cultural muito interessante entre Brasil e Espanha. Qual o papel do Instituto Cervantes na manutenção desses elos?
 
Para a Espanha, o Brasil é um país parceiro cultural importantíssimo. Aqui, nosso país possui a maior rede de Institutos Cervantes do mundo: oito centros em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador e Curitiba. O Cervantes é um órgão da Administração Espanhola encarregado de promover a cultura espanhola em todas as suas variantes, bem como de executar a política cultural do Estado espanhol no Brasil.
 
A coordenação e colaboração entre os oito Institutos é constante, o que se reflete em um grande número de eventos culturais conjuntos e ações comuns de promoção da cultura espanhola. Esta colaboração tem seu equivalente nas intensas relações mantidas pelo Conselho Cultural da Embaixada da Espanha com o Ministério da Cultura do Brasil, com os diferentes atores culturais do estado da Bahia, bem como com inúmeras instituições brasileiras ao redor do mundo. Todos eles são instrumentos muito úteis para projetar ao público brasileiro as atividades e manifestações culturais do nosso país em toda a sua diversidade.
 
Como foi para você passar por uma pandemia estando no Brasil e também acompanhando as notícias do seu país?
 
Nos primeiros meses da pandemia, a Espanha foi um dos países mais atingidos por esta grave doença. Enquanto o Brasil ainda vivia uma relativa tranquilidade, o número de atingidos na Espanha crescia assustadoramente, fato que determinou a implantação de um dos mais rigorosos lockdown de toda Europa. A preocupação com a saúde de amigos e família tornou-se algo bastante real naquele momento. Já no Brasil, muito devido a seu tamanho continental, a propagação do vírus ocorreu pontualmente em algumas grandes cidades para depois se espalhar numa velocidade mais branda, mas ao mesmo tempo, de forma mais prolongada em seu território. Eu acredito que tanto Espanha quanto o Brasil ainda têm grandes desafios pela frente, mas tenho confiança que ambos sairão com grandes lições.
 
Qual sua expectativa para a retomada do turismo entre Brasil e Espanha?
 
Sem a vacina à disposição da população, não haverá uma recuperação real, e sim, muito tímida. Esta recuperação vai ser lenta e, em princípio, até que os números melhorem, será necessária muita cautela. Mas com o potencial turístico do Brasil, assim que o perigo diminuir, a recuperação será espetacular, pois as pessoas depois do confinamento vão querer viajar, se a economia permitir. O principal problema que parecemos enfrentar no “novo normal” será nossa capacidade de controle e adaptação.
 
O potencial de belezas naturais, paisagens culturais e históricas e os encantos do Brasil são impressionantes. O país tem muito mais potencial para tirar mais proveito de todas essas vantagens, mostrando ao mundo todos os seus encantos, ainda desconhecidos para o turismo, já que não é só samba, praia e Rio de Janeiro. São os espaços naturais, as selvas, os rios, o interior do país e o patrimônio cultural, os museus, a história, cidades como Ouro Preto, Brasília, Gramado e claro, Salvador. Sem esquecer a rica gastronomia com os seus inúmeros produtos, alguns deles tão desconhecidos, mas ao mesmo tempo tão versáteis como a mandioca nas suas infinitas versões.
 
Há quanto tempo você está no Brasil à frente do Cervantes?
 
Em 2011, cheguei a São Paulo onde morei durante cinco anos na cidade que jamais descansa. Nesse período, trabalhei com funções de administrador do maior Instituto Cervantes do Brasil e, desde o primeiro momento, o povo brasileiro, com esse caráter amável e acolhedor, me recebeu de braços abertos. Em 2016, fui transferido para Brasília onde continuei desempenhando as mesmas funções no Instituto Cervantes na capital do país. Em 2019, fui nomeado Diretor do Instituto Cervantes de Salvador, localizado na Ladeira da Barra, com vista para a Baía de Todos-os-Santos e para a Ilha de Itaparica. Foi com essa mesma impressionante vista que o pintor Maíno, encarregado pelo rei espanhol Felipe IV, em 1634 relatou “A Recuperação da Bahia de Todos os Santos” num extraordinário quadro que agora ocupa uma das principais salas do Museu do Prado, ao lado dos grandes mestres como Velazquez, Zurbarán, Tiziano, El Bosco. Nesse quadro, relata-se a batalha naval da Espanha junto a Portugal para expulsar aos holandeses da Bahia e da cidade de Salvador a qual tinham tomado um ano antes. O quadro foi destinado a ser colocado no salão dos Reinos do Palácio do Buen Retiro, centro do poder do rei espanhol.
 
Qual a sua origem na Espanha?
 
Mesmo tendo um sobrenome que faz referência a uma região do norte da Espanha, a Galícia, sou natural de uma cidade da Andaluzia, na beira-mar do Mediterrâneo chamada Motril; cidade com uma paisagem muito parecida com a Bahia: abacateiros, mangueiras, gravioleiras, palmeiras e cana de açúcar, com cheiro de melaço e de rum, com o mar sempre presente e regulando esse microclima específico, motivo pelo qual a região é chamada Costa Tropical. Nessa cidade do Sul da Espanha, passei a minha infância e adolescência, e posteriormente segui meus estudos pela França, Inglaterra e Bélgica. Essa experiência multicultural me lançou numa carreira internacional e criou um desejo imparável de conhecer o mundo.
 
Quais os principais aspectos, na sua opinião, que aproximam os dois povos e as suas culturas? 
 
Se há uma pergunta que normalmente é feita pela família e amigos é:  em que somos parecidos os espanhóis e os brasileiros? Se por um olhar, somos povos bem diferentes, ainda assim, há uma extrema simpatia recíproca entre ambos os povos. Os espanhóis adoram e admiram o Brasil e sentimos uma atração irreprimível por todo seu povo. Creio que esta empatia seja recíproca, superando outros povos europeus.
 
Em qualquer caso, a ascendência latina compartilhada tanto pelo Brasil quanto pela Espanha não se resume apenas pela língua, mas também pela cultura. Não devemos também esquecer do clima que modela os povos e as pessoas, pois apesar de se encontrar em território europeu, a Espanha certamente é dos países de clima mais ameno de toda Europa. A espontaneidade das pessoas certamente é outro traço que une os dois países, assim os dois povos são mundialmente conhecidos como extremamente receptivos e comunicativos.
 
E quais as principais diferenças?
 
Como eu costumo dizer, nós espanhóis somos extremamente próximos aos brasileiros, mas ao mesmo tempo, totalmente distantes.  A assertividade é uma forte característica espanhola que às vezes pode ser confundida com uma certa rispidez. Em amabilidade, os brasileiros ganham de longe, pois nós espanhóis somos muito mais bruscos; os brasileiros são alegres, sensuais, espontâneos e otimistas. Nós espanhóis somos alegres e sinceros, mas sérios e trágicos e bem mais pessimistas. O brasileiro é sentimental e o espanhol, passional. Na Espanha, se alguém perguntar como você está, a resposta sempre tende a ser desfavorável; no Brasil, mesmo com o coração apertado, a resposta sempre vai ser positiva.
 
Para o pós-pandemia, o Instituto Cervantes está planejando alguma atividade ou novidade para as atividades aqui em Salvador?
 
Durante a pandemia, o Instituto Cervantes tem desenvolvido toda a atividade cultural de maneira virtual. No próximo dia 26 de setembro, junto com os centros culturais europeus que fazem parte de EUNIC [European Union National Institutes for Culture], vamos a comemorar o Dia Europeu das Línguas com projeções de cinema europeu no Cinema Drive In do Instituto Goethe, assim também vamos celebrar uma telejornadas de formação de línguas para professores entre as três Instituições Culturais Europeias em Salvador- Aliança Francesa, Goethe Institut e Instituto Cervantes de Salvador. Em novembro, está programada uma Mostra de Cinema Argentino, que contará com uma seleção de variados e premiados filmes da recente e exitosa produção daquele país.
 
Na etapa da pós-pandemia, ao voltarmos à nova normalidade com as atividades presenciais, estamos trabalhando para trazer para a Bahia um grande pianista para um concerto comemorativo do Dia Nacional Espanhol, assim como um concerto de Zarzuela em colaboração com uma das orquestras de Bahia.  Do mesmo modo, estamos planejando com muito afinco uma exposição de um fotógrafo espanhol em colaboração com fotógrafos baianos para realização conjunta de oficinas e exposições visando uma maior integração com o público baiano.
 
Foto: divulgação. Siga o insta @sitealoalobahia.

7 Sep 2020

Fundadora da Singular Pharma: “O novo normal é ser uma empresa responsável e relevante”

Conteúdo sob medida Alô Alô Bahia.

A história da farmacêutica e empresária Edza Brasil é amplamente conhecida na Bahia. Pioneirismo, pensamento empreendedor e senso de oportunidade marcam a trajetória da baiana de Paramirim, que há 5 anos mudou completamente sua carreira e começou uma nova história no segmento de saúde e bem-estar ao fundar a Singular Pharma, ao lado do filho Bruno Brandão.
 
Nessa entrevista ao Alô Alô Bahia, Edza fala dos aprendizados obtidos com a pandemia de Covid-19, e as estratégias que fizeram a Singular Pharma registrar crescimento mensal de 400% nas vendas por delivery em comparação com o mesmo período do ano passado. Ela ainda conta um pouco dos segredos de saúde que a fazem continuar em forma e com o pique de uma iniciante.
 
A Singular Pharma tem lojas nos shoppings Paralela, Itaigara, Salvador e Parque Shopping Bahia, em Vilas do Atlântico (Lauro de Freitas), além da matriz, na Avenida Paulo VI, na Pituba. A marca também está presente em Vitória da Conquista, Remanso, Feira de Santana, Serrinha, Alagoinhas e Aracaju.
 
1 – A pandemia foi um grande desafio para diversos segmentos. Como foi a experiência de vocês?
As sensações foram muitas e diversas. No início, um choque. Estávamos num processo acelerado de expansão, com lojas recém-inauguradas e um planejamento de novas aberturas até o final do ano. Ver esse investimento parado foi difícil. Logo depois, fizemos um exercício que está no DNA da marca. Olhar pra nós mesmos. Pensar naquilo que estava ao nosso alcance fazer para driblar o cenário de lojas fechadas. Foi então que fizemos uma reavaliação completa de nossas operações, entendemos onde poderíamos fazer mudanças e partimos pra ação. Assim surgiu o conceito do Easy Delivery, que sustentou nosso crescimento neste período e a decisão de não reabrir algumas unidades presenciais, mesmo quando tivéssemos autorização. Nos reinventamos e apontamos para outro caminho, que se mostrou acertado na medida em que a pandemia avançou.
 
2 – Mas o tempo parado, com lojas fechadas por mais de 3 meses não foi uma surpresa? Quando foi que vocês perceberam que a aposta no delivery era o caminho certo?
Por sermos uma empresa de saúde, temos muita interlocução com o meio científico. Sabíamos que a ideia de um fechamento rápido não era viável. Por isso, nós sempre trabalhamos com a ideia de uma suspensão de atividades não-essenciais por um tempo maior do que aquele que inicialmente era previsto. A nossa ficha foi caindo aos poucos. Primeiro, nós ressignificamos o conceito de serviço essencial. Sempre soubemos da importância do nosso trabalho, mas a pandemia potencializou isso. Começamos indo a público participar de pautas de serviço, colocamos nosso conhecimento à disposição da comunidade. Depois, entendemos que a presença física trazida pelas lojas poderia ser amenizada com uma presença simbólica e de utilidade pública. Optamos por estar perto, mesmo sem contato. Não acreditamos que o delivery é um caminho único. Mas que a presença vai além de ter uma farmácia em cada shopping da cidade. A presença é ser útil e que o novo normal é ser uma marca relevante.
 
3 - Mesmo durante a pandemia, a Singular Pharma se destacou como uma das marcas locais que investiu em marketing e comunicação. O que levou vocês a aparecer num momento em que muitas empresas optaram por não aparecer?
A comunicação foi essencial para conseguirmos mostrar a comunidade que não somos apenas uma farmácia, somos um centro completo de soluções para a saúde e o bem-estar, desde a prescrição de manipulados até a compra de suplementos, vitaminas, produtos que promovem o bem estar de maneira geral.  
 
E esse posicionamento foi sustentado com uma estratégia de comunicação em diversas plataformas: redes sociais, assessoria de imprensa e publicidade. Levamos ao ar uma campanha publicitária durante o período mais agudo do fechamento em Salvador. Ao mesmo tempo, participamos de matérias jornalísticas levando conhecimento e serviços à população, que, naquele momento, já sofria com a disseminação de informações falsas e sem comprovação científica. Nas nossas redes sociais, criamos uma série de lives com médicos, nutricionistas e outros profissionais de saúde para discutir os temas mais interessantes do momento.
 
Toda essa estratégia deu resultado: o público nos viu como parceira, como útil e comprometida com o momento delicado que continuamos vivendo.
 
4 – E o Easy Delivery? O que de fato é esse conceito? Como ele foi determinante para o crescimento registrado nesse período?
A modalidade de venda por delivery já existia. A novidade que trouxemos foi fazer isso de forma simples, próxima e humanizada. E isso só foi possível graças ao investimento grande que fizemos, seja em melhorias no call center da marca, ampliação da nossa estrutura logística e tecnológica e, principalmente, foco em treinamento, capacitação e mudança de processos internos. O nosso foco estava no ponto de venda antes da pandemia. Agora, o foco está na jornada do cliente e em como ela pode ser facilitada. Não abandonamos o modelo de venda física, mas analisamos caso a caso, estudando a performance de cada unidade física para chegar na operação que temos atualmente. Com a marca mais presente na vida das pessoas, com um investimento maior em tecnologia e marketing, o cliente chega até nós em qualquer lugar da cidade, com atendimento simples e entrega gratuita dos pedidos. 
 
5 – E o futuro da marca? Agora com a reabertura, qual futuro vocês enxergam para as lojas físicas, por exemplo?
A idéia de omnichanel vai se intensificar. Isso significa que continuaremos sim olhando pontos para abertura de lojas físicas e trabalhando forte na expansão via franquias. E a análise da localização e da dinâmica própria do ponto escolhido ganhou muita relevância. O Horto Florestal, por exemplo, está no nosso radar de expansão.
 
Ao mesmo tempo, o investimento em marketing e comunicação precisa ser consolidado já que as lojas físicas também funcionam como pontos de comunicação da nossa mensagem. Estaremos cada vez mais nas redes sociais, com campanhas de posicionamento e de conteúdo útil. Na publicidade, continuaremos a convidar nosso cliente a experimentar nosso atendimento e nosso mix de produtos de bem-estar, além de manter a comunicação técnica e transparente com a comunidade médica, de nutricionistas e outros prescritores.
 
Por fim, não podemos gerar dúvidas na cabeça do cliente. Ele aposta que a marca não será apenas relevante durante a pandemia, mas também no chamado novo normal, por isso nos engajamos numa campanha de apoio a denúncia contra a violência doméstica, treinando nossos funcionários para receberem clientes em situação vulnerável. E continuaremos a apoiar e realizar iniciativas de disseminação de conteúdo confiável, práticas saudáveis e atuação responsável.
 
6 – Pra terminar, queríamos saber um pouco dos seus segredos de bem-estar e saúde.
Eu digo que temos que ser reflexos da nossa empresa. Por isso, desde que fundamos a Singular Pharma, eu mudei completamente minha postura. Nos diversos seminários e cursos que faço, descobri que o intestino é o nosso segundo cérebro e, desde então, só permito que entre no meu corpo alimentos de verdade, com acompanhamento nutricional e de forma balanceada. Descobri a paixão pelo ciclismo e isso também ajudou no meu controle de peso e no equilíbrio do meu corpo. Tenho bons hábitos, uma família próxima e amigos queridos. Não tem segredo. É só lembrar que bem estar é uma decisão e que todo merece e deve se cuidar.


Foto: divulgação. Siga o insta @sitealoalobahia.

23 Jul 2020

“Tinha muita gente fazendo turismo na pandemia na Ilha”, diz prefeito de Vera Cruz

Localizado na Ilha de Itaparica e dentro da região metropolitana de Salvador, o município de Vera Cruz tem 191 casos confirmados de coronavírus, com 136 pessoas já curadas - mais de 70% do total. A cidade tem 441 casos por 100 mil habitantes, uma das menores taxas da região metropolitana.
 
O prefeito Marcus Vinicius afirma que o município conseguiu controlar o avanço da pandemia graças a uma série de medidas. Ele diz, contudo, que evitou a “canetada” adotada em outros municípios e apostou em ações mais práticas visando o incentivo às pessoas para que cumprissem o isolamento. O município é um dos poucos da região metropolitana e entorno que não estão com toque de recolher.
 
Para isso, ele conta que a cidade fez doações de cestas básicas e prorrogou o pagamento dos impostos municipais, dentre outras medidas.
 
Sobre o ferryboat, o prefeito diz que chegou a solicitar ao governo do estado um maior controle, para priorizar os moradores da Ilha, mas não teve sucesso. Com isso, o fluxo de pessoas seguiu grande. “Tinha muita gente fazendo turismo interno na pandemia, principalmente com os comércios fechados na capital, isso para Salvador foi positivo, mas para a Ilha e para a Linha Verde foi negativo, porque as pessoas saíram, não é?”, afirmou.
 
Vera Cruz tem 191 casos com 136 curados, ou seja, a maior parte já está recuperada. Como está a situação hoje? O senhor acha que já está controlado ou ainda há um certo risco?
 
Não podemos desconsiderar que a gente está situado no epicentro do coronavírus na Bahia, a Região Metropolitana de Salvador (RMS), que é o segundo maior aglomerado urbano do Nordeste inteiro, então nessa situação, por a gente ter um contato direto e diário com a capital com os ferries e as lanchas, não dá para dizer que a gente tem a situação controlada, porque temos o fluxo indo e voltando da capital todos os dias. Mas internamente na cidade as medidas que nós adotamos nos deixou, desde o início da pandemia, até esses quatro meses da pandemia, com o menor índice de casos confirmados em relação à população. Menor até que as cidades menores, do que a nossa na Região Metropolitana. Todas as cidades menores que Vera Cruz tem mais casos do que Vera Cruz. Nós estamos última posição na Região Metropolitana em relação ao número de casos. Acredito que as medidas internas adotadas na cidade permitiram o controle no avanço da pandemia, mas não dá para dizer que está sob controle principalmente pela região em que estamos situados e pelo transporte intermunicipal, os ferries e as lanchas não terem parado e estarem em trânsito com fluxo direto pela capital.
 
Que medidas o senhor destaca como importantes nesse trabalho?
 
Desde o início da pandemia eu verifiquei com a equipe que não daria para a gente resolver na canetada, só com lockdown, de toque de recolher, de decretos normativos. A gente percebeu que isso não ia funcionar. Então fomos para outra vertente e criamos programas de incentivo à população para que essas pessoas não fossem para as ruas. Em vez de fazer a canetada do decreto, começamos a fazer programas de incentivo. Para você ter uma ideia, logo em março quando o coronavírus chegou, a gente paralisou logo as aulas também, mas a gente começou a criar leis de incentivo para toda a população que sobrevive diretamente do fluxo das ruas: os ambulantes, os feirantes, os mototaxistas, os transportes alternativos, os artesãos, os vendedores, todas as pessoas que fazem movimento nas ruas. A gente criou um programa municipal chamado Benefício Eventual Municipal, o BEM. Esse programa por três meses dava comida na mesa, dava cesta básica. Então durante três meses esse programa vinha para dizer: ‘olha, você que sobrevive das ruas, não vá tanto nas ruas porque a prefeitura vai dar alimentação’. Então quando a gente fez isso, a gente desestimulava as pessoas de irem para as ruas para se cadastrarem e receberem o benefício. Eu acho que isso foi mais bacana do que a gente estar decretando, fechando, porque a gente viu que não funciona. Aí o que acontece?
 
Neste sentido, quais ações foram realizadas?
 
A gente criou um programa também para dar cesta básica para todos os alunos da rede. Cesta básica mesmo, são 20 kg de alimento por aluno. Só essa semana aqui Vera Cruz vai dar 10 mil cestas básicas. São 3 mil do BEM, o programa municipal, e mais 7 mil da rede, os alunos. Então a gente criou uma lei municipal postergando todos os tributos de alvará, de taxa de funcionamento, de IPTU. Criamos uma lei puxando tudo para a frente para as pessoas terem tranquilidade, não precisarem correr para trabalhar para pagar os impostos municipais agora. Então, assim, a gente flexibilizou impostos, postergou vencimentos, fez lei de alimentação, com tudo isso aí eu acho que a gente encontrou um caminho diferente do que todas as outras cidades. Toda a Região Metropolitana tem várias semanas em toque de recolher. Só Vera Cruz não está em toque de recolher. E Vera Cruz está acumulando índice de isolamento social maior do que todas as cidades com toque de recolher, porque a gente, em vez de partir para a canetada, adotou diversas medidas de estímulo à população para que ela não saísse. Isso deu bastante resultado aqui para que a gente tivesse esse controle de casos.
 
O ferry normalmente tem uma circulação muito grande. Como o senhor de certa forma controlou o fluxo de pessoas que iriam para Vera Cruz?
 
A gente fez um pleito ao governo do estado, porque o transporte é intermunicipal então não podemos nem fiscalizar nem regulamentar. Só o governo do estado pode fazer isso. Então a gente fez um pleito ao governo do estado que destacasse uma prioridade no ferryboat para moradores, para inibir mais o fluxo de vinda de turismo. Tinha muita gente fazendo turismo interno na pandemia, principalmente com os comércios fechados na capital, isso para Salvador foi positivo, mas para a Ilha e para a Linha Verde foi negativo, porque as pessoas saíram, não é? Não ficaram paradas em Salvador em isolamento. Então a gente pediu ao governo que fizesse uma prioridade aos moradores, mas infelizmente não foi feito. O que o governo fez foi uma restrição de fim de semana, sábado e domingo, e isso conseguiu evitar um pouco o fluxo de pessoas no fim de semana, mas como o comércio da capital está fechado, as pessoas podem sair qualquer dia, os comerciantes, lojistas, funcionários, estavam saindo. E como a Rodoviária de Salvador estava fechada, o ferry virou uma porta de saída de Salvador. Então a gente não conseguiu controlar na verdade o fluxo de chegada do ferry e da lancha.
 
Diante disso, o que foi feito para reduzir o impacto desta movimentação?
 
O que a gente fez foi medir temperatura, colocar cabine de desinfecção na chegada, controle de temperatura porque o paciente que chega acima de 37.8ºC, ele já faz a triagem e segue para um posto de testagem só para viajante que a Prefeitura instalou. Então quem chega e tem febre é testado contra coronavírus na hora na cidade. Então com isso a gente conseguiu fazer uma triagem, apesar da gente saber que têm os assintomáticos, para a gente conseguir fazer uma triagem dos viajantes que chegam pela lancha - porque o Ferry chega na cidade de Itaparica, não Vera Cruz - e a gente acha que conseguiu um bom resultado. Infelizmente a gente hoje não tem uma prioridade para quem é morador da Ilha para acessar o ferry. Essa é uma pauta que eu estou brigando no governo que seria acho que o fator principal porque inibiria quem vem de fora. Eles verem que tem prioridade para morador, uma fila específica para morador, eu acho que daria uma segurada a mais. Na prática o pessoal que está vindo para a Ilha está lotando o ferry e até o próprio morador da Ilha está tendo dificuldade de pegar o ferry, as lanchas. Então isso é um fluxo que infelizmente a gente não conseguiu inibir porque a gente precisa dessas medidas do governo e a prioridade para mim é destinar um percentual nas embarcações para os moradores da Ilha.
 
Qual o impacto que a cidade já sente na economia?
 
Primeiro em relação às verbas que vêm de fora, porque a economia do município também gira em torno das receitas estaduais e das receitas federais. Então a queda do Fundo de Participação do Município, o FPM, foi muito forte, a queda dos repasses estaduais como o ICMS, que é o repasse pela circulação das mercadorias, foi muito forte, então a gente tem uma queda já das receitas constitucionais que o município recebe dos outros entes. Isso caiu muito. A receita interna de Vera Cruz ela cai por dificuldade das pessoas de estarem fazendo pagamentos, mas aqui graças a Deus a gente não teve problema com o comércio. O comércio da cidade a gente manteve funcionando, então não teve demissão em massa, não teve quebra de empresas, então esse cenário em Vera Cruz a gente não teve. Então a gente teve muito mais perdas em relação aos recursos externos que a gente recebe pela grande queda de arrecadação estadual e federal.
 
Qual foi o impacto no turismo?
 
O turismo parou porque desde março a gente proibiu o acesso de ônibus de turismo na cidade, a gente fechou as praias, as barracas de praia, de março a julho. Nosso turismo é um turismo de sol e praia, então quando a gente fez essa inibição, esse turismo que circula a cidade, ele parou. A gente teve uma perda nas pousadas, na rede hoteleira muito forte nesse sentido.
 
O senhor tem uma previsão de quando que se poderá retomar as atividades do turismo?
 
Eu acredito que a última coisa a voltar vai ser o turismo, porque se você observar até as aulas estão paradas. O turismo, o lazer, os eventos eu acredito que vão ser os últimos a voltar. Então para os próximos meses, eu acredito que para setembro a gente deve ter uma retomada das aulas, essa que é uma atividade essencial para a gente tentar não perder esse ano letivo, fazer uma nova divisão. Mas essa questão do turismo, desse fluxo mesmo da questão do turismo de sol que a gente tem aqui, eu acredito que, em uma visão esperançosa, com a gente conseguindo ter a vacina no final do ano, é que a gente vai conseguir pensar em um aquecimento  desse setor, do setor turístico, do setor hoteleiro, mas eu acho que sem a vacina vai ficar difícil a gente fazer uma previsão nesse sentido.
 
Qual é a estrutura que o município tem para atender aos pacientes? Tem leito de UTI?
 
Não, a Ilha de Itaparica, que é composta por dois municípios que é Vera Cruz e Itaparica, nunca teve leito de UTI. Em Vera Cruz, quando a pandemia começou, nós montamos leitos com respiradores porque temos uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Então nós temos quatro leitos com respiradores para a gente pelo menos estabilizar esse paciente na Ilha, para fazer a regulação dele. Nós temos como retaguarda aí na Região Metropolitana, a cidade de Salvador, então a gente regula para o Espanhol, para o Ernesto Simões. Então a gente tem hoje na Ilha uma estrutura de estabilização de paciente. Vera Cruz tem os leitos municipais com respiradores e posteriormente o governo do estado instalou no Hospital Geral de Itaparica, que é geral e atende à Ilha, um centro e coronavírus, para receber paciente também mas não tem UTI. É para estabilizar e transferir. E Vera Cruz está abrindo agora um gripário, que é para receber casos de coronavírus e síndromes gripais, também com leito de estabilização com respirador. E nós temos aqui UTI Móvel, que é ambulância avançada, mas que é para fazer traslado também. A estrutura que a Prefeitura de Vera Cruz tem seus leitos com respiradores, mais gripários, e ambulância avançada com UTI, mas a gente não tem leito de UTI na Ilha. 
 
Como está a expectativa do senhor para a Ponte Itaparica-Salvador?
 
Eu acredito que, pelo porte do investimento, como tudo foi afetado pela pandemia do coronavírus, tudo foi postergado, acho que a ponte faz parte desse cenário. É um recorte dentro desse retrato amplo. Na minha visão, baixando a poeira agora no final do ano, tenho a perspectiva de que o contrato será assinado e que dará continuidade aos estudos, porque a empresa tem um ano para dar continuidade aos estudos, quatro para construir e são 35 anos para a concessão, então são 30 para explorar. Então eu acredito que o contrato vai ser prorrogado, eu estou sempre em contato com Marcos Cavalcanti, da Seinfra, a empresa vem tirando dúvidas sobre o solo do município, mandou fazer o levantamento aerotopográfico. Eles têm tido iniciativas e trabalhos preliminares aqui na Ilha que dão a entender realmente que o contrato vai vir a ser assinado.
 
Foto: divulgação. Siga o insta @sitealoalobahia.

15 Jul 2020

“O São João ocasionou um movimento maior de pessoas”, diz prefeito de Cruz das Almas

Tradicional destino para os festejos juninos, o município de Cruz das Almas viu os casos de coronavírus darem um "boom" após o São João, mesmo com as limitações impostas pelas medidas adotadas pela prefeitura e pelo governo do estado para impedir o avanço da pandemia.
 
Com aumento de 247% nas confirmações desde o dia 20 de junho, a cidade acendeu o sinal de alerta e decidiu adotar um isolamento social mais intenso, segundo conta o prefeito Orlando Peixoto Pereira Filho (PT), popularmente conhecido como Orlandinho. Na cidade, os casos saltaram de 70 no dia 20 de junho para 243 nesta quarta-feira (15).
 
Ele prefere não chamar a medida de lockdown, mas de "isolamento social rígido", que permite apenas o funcionamento dos serviços essenciais. O prefeito diz que tem bom diálogo com o comércio e que os comerciantes têm respeitado as medidas de isolamento.
 
O prefeito diz ainda que a não realização do São João provocou um impacto estimado de R$ 30 milhões na economia da cidade e que a arrecadação do município caiu em torno de 30% devido à pandemia. Ele ainda comentou sobre o adiamento das eleições e mostrou preocupação com a falta de medidas em relação à campanha.
 
Mesmo com as medidas para evitar festas juninas, os casos de coronavírus estouraram nas cidades que possuem a cultura do São João, como Cruz das Almas O senhor esperava que isso fosse acontecer?
 
Orlandinho: Nós fizemos, durante 20 dias, desde o início do mês de junho, várias lives, várias mídias em redes sociais, pedindo às pessoas para não se deslocar para Cruz das Almas, para que não fizessem visitas aos amigos, familiares, para que a gente pudesse proteger a cidade e a saúde das pessoas. Temos duas barreiras sanitárias, mas mesmo assim parece que as pessoas têm na cabeça essa época como um momento para ver a família... E isso fez com que houvesse um fluxo extremamente menor, obviamente, em relação aos outros anos, mas ainda assim teve um fluxo de pessoas vindo para cá. E certamente ocasionou um movimento maior de pessoas. Junto com isso já havia ocorrendo um processo de interiorização do vírus na Bahia e em outros estados, então acho que junta as duas coisas.

Diante do aumento dos casos do período junino, quais medidas o senhor adotou para impedir que o vírus continue circulando?
 
Orlandinho: A última mudança foi exatamente essa de utilizar um modelo, que não é lockdown, que é um termo que está sendo utilizado de forma inadequada em alguns lugares, porque nele você fecha tudo, não abre nada. Aqui se chama isolamento social rígido, que é esse que, ao invés de abrir comércio em horário restritivo, agora somente pode funcionar os itens essenciais e em horários específicos. Nesse modelo, permanecem abertos somente os itens extremamente essenciais, que são os supermercados, hipermercados, farmácias, postos de combustíveis, as oficinas mecânicas para consertos automotivos e borracharias. Esse modelo tem validade até a próxima segunda-feira. Percebo que durante essa semana alcançamos uma média melhor do que a semana anterior.
 
Como está o diálogo com o comércio? Há alguma revolta em relação às restrições?
 
Orlandinho: Nós estamos dialogando sempre. Agora mesmo nas medidas de isolamento rígido eles estão colaborando bastante, estão cumprindo o decreto. O comércio tem tido uma relação de diálogo boa com a prefeitura.
 
Quais as principais ações o senhor tem determinado para o combate do coronavírus em Cruz das Almas desde o início da pandemia?
 
Orlandinho: Nós mudamos o padrão das ações de acordo com a dinâmica da crise sanitária. Nós estamos fazendo a higienização da cidade, dos principais pontos, das unidades de saúde; fizemos distribuição de máscara para a população, de álcool em gel para os feirantes; fizemos distribuição de máscara para os comerciários, instalamos um Pronto Atendimento para a covid-19, que tem duas alas, uma ambulatorial e uma de internamento semi intensivo e estamos fazendo acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade social registradas nos cadastros sociais, além das medidas de restrição do funcionamento do comércio de 13h até às 18h.
 
Cruz tem uma tradição muito forte do São João. Qual impacto para a cidade em não ter a festa esse ano?
 
Orlandinho: O principal momento da cidade é o São João, não é? A gente começa a planejar a festa em fevereiro, março. O comércio geralmente tem aumento significativo. É uma festa que dura uns 4, 5 dias e passam pela cidade cerca de 80 mil, 100 mil pessoas. Não que permaneçam na cidade, mas fazem bate-volta. Quase 36 mil permanecem nos hotéis e pousadas- então também tem esse impacto que é muito grande. Perde o setor hoteleiro, o comércio, os restaurantes, os próprios ambulantes que montam suas barracas.
 
O São João costuma movimentar quanto na cidade?
 
Orlandinho: Eu acredito que, envolvendo hotelaria, restaurante, alimentação, quituteira, processo de pessoas da área cultura, serviço, garçom, camareira, tudo isso em torno de R$ 30 milhões mais ou menos. É muita coisa, um impacto grande na cidade. Todas as cidades que tem um São João muito tradicional sofreram muito, além do impacto do dia-a-dia. O comércio deixou de contratar. Essa semana mesmo vimos a notícia de que Salvador, São Paulo não sabem quando vão fazer o Carnaval. Então, todos estão sofrendo com estes impactos.
 
Qual foi o impacto da pandemia na arrecadação do município?
 
Orlandinho: As principais fontes de recursos que os municípios médios têm são o FPM (Fundo de Participação dos Municípios) e o ICMS, que está tendo recomposição, mas ainda com base no ano anterior. Ainda assim, o Congresso e governo federal não conseguiram chegar a um acordo para que essa recomposição ocorra até o fim da pandemia. A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) está prevendo uma queda de arrecadação em torno de 30%, 40% em relação à expectativa que tinha para este ano.
 
Em Cruz percentualmente a queda está em quanto?
 
Orlandinho: Eu não tenho esses números ainda compatibilizados porque prorrogamos algumas taxas municipais, a principal delas foi o IPTU até dia 31 de julho, então somente a partir do dia 31 de julho que a gente vai ter esse número. A gente acredita que esteja na margem do que está a maioria dos outros municípios, considerando principalmente o ICMS, a defasagem da contribuição do FPM de um ano para o outro, com base do ano passado, acredito que em torno da taxa de 30%. Será ainda maior se não houver essa recomposição do FPM do governo federal até o mês de dezembro. Se não mantiver vai ter uma queda maior.
 
Nesse cenário as prefeituras tendem a ter muita dificuldade para fechar as contas no fim do ano...
 
Orlandinho: Acho que as dificuldades vão ter. Agora, eu acho que depende muito também do tamanho da dificuldade se maior ou menor vai depender muito do acordo do Congresso Nacional com o governo federal para ver se vai continuar fazendo a recomposição do FPM. Os municípios já estão recebendo a segunda parcela (dessa ajuda). Então, depende muito dessa recomposição do FPM prevista na Medida Provisória, que está acabando agora.
 
Qual a sua opinião sobre o adiamento das eleições? O senhor acha que a mudança para novembro vai importante ou acredita que há risco de a pandemia apresentar riscos?
 
Orlandinho: Isso depende muito. Por isso o Congresso, quando aprovou o adiamento, deixou uma brecha que permite que, se na semana da eleição em novembro, não houver condições sanitárias em alguns estados e municípios, poderá novamente ser prorrogada até dezembro. Então, vai depender muito das condições sanitárias. Eu acho que prorrogar um mês (de outubro para novembro) deve surtir algum efeito, sim. O mais preocupante, e ainda não saiu nenhuma medida em relação a isso, é como serão as campanhas. Vai ser permitido caminhada, comício, carreata? Ninguém sabe bem como vai ser a campanha, se vai ser de rua ou se vamos ter uma campanha mais virtual. Todo mundo está achando que será uma campanha mais virtual do que de rua.



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9 Jul 2020

“Acredito que o maior impacto nas contas vai ser no ano que vem”, diz prefeito de Serrinha

Após um “boom” nos casos de coronavírus no começo de junho, Serrinha conseguiu estabilizar o avanço da pandemia e tem, hoje, 74% das pessoas infectadas já recuperadas. Contudo, o prefeito Adriano Lima diz que o momento ainda é de alerta. No município, o comércio funciona de forma alternada: semana abre, na outra fecha.
 
Neste momento, a cidade tem dez leitos de UTI, com oito deles ocupados. Além disso, ganhou o reforço de 20 novos respiradores do Ministério da Saúde, o que vai permitir a ampliação do atendimento. E o momento preocupa o prefeito, devido ao aumento dos casos em Feira de Santana, o que pode levar pacientes de municípios menores da região para Serrinha. Antes, eles teriam Feira como referência.
 
O prefeito estima prejuízo de 40% na arrecadação e projeta um 2021 muito difícil para as prefeituras, uma vez que o governo federal não terá condições manter a ajuda a estados e municípios no longo prazo. Lima ainda afirma que a decisão de adiar as eleições foi prudente, mas diz que o ponto negativo é que a transição da gestão, antes feita em três meses, agora será em apenas 30 dias.
 
Confira a entrevista:
 
Alô Alô Bahia - Serrinha tem até esta quarta-feira (8) 396 casos confirmados, sendo que, deste total, 289 pessoas curadas. Ou seja: 74% das pessoas que tiveram covid-19 já superaram a doença. O senhor acredita que a situação no município está confortável?
 
Adriano Lima - Na verdade, muitas vezes estes números deixam uma sensação ilusória. Ainda não estamos confortáveis e precisamos nos manter muito ligados. Neste sentido, estamos testando muito. Nós já adquirimos 5 mil testes rápidos para ampliar essa testagem e vamos adquirir mais 5 mil. Quando nós fazemos isso, a pessoa respeita mais o isolamento, porque, quando sabe que está ou o vizinho foi infectado, ela fica mais ligada, cumpre o isolamento, atende às medidas. Então, ao fazer essa testagem em massa nós conseguimos rastrear os casos, isolar as pessoas infectadas e aquelas com que elas tiveram contato, e fazer este acompanhamento pela equipe da Saúde. Isso ajuda a não disseminar tanto.
 
Alô Alô Bahia - O funcionamento do comércio foi flexibilizado. Como está essa situação hoje?
 
Adriano Lima - Eu tinha flexibilizado num período, depois voltei a restringir o funcionamento. Hoje eu mantenho uma semana fechada e outra aberta. Essa semana, por exemplo, está aberto, funciona até sexta só. Final de semana não abre, somente os serviços essenciais podem funcionar. Na próxima semana, fica fechado. Então, estamos utilizando essa estratégia de fazer uma abertura alternada. Na capital não tem muito isso, mas no interior, culturalmente, quando a pessoa fala ‘vou para a rua’, ela acha que é para passear. Por exemplo, vai fazer mercado e leva três pessoas da família, passa por vários lugares. Estou tentando frear esse período de contaminação e evitar um aumento descontrolado para não sobrecarregar os leitos de UTI.
 
Alô Alô Bahia - O fato de Serrinha ser uma cidade polo deixa o alerta ainda mais ligado?
 
Adriano Lima - Nós temos pessoas de outras cidades que vêm para cá para o comércio, fazer compras. Além disso, estamos na margem da BR-116, que é uma das mais movimentadas do Brasil. Essa característica geográfica da nossa cidade acaba, neste momento da pandemia, sendo uma coisa negativa. Para controlar isso, fizemos barreiras sanitárias. Temos barreiras nos dois pontos de acesso da BR-116 e em uma rodovia estadual. Agora, em uma barreira sanitária a eficácia termina não sendo tão grande. A equipe afere a temperatura, pergunta de onde está vindo e para onde está indo. Não há um controle tão grande. Tanto que o governo do estado não faz mais. E ainda tem um problema que é de EPI, que é necessário e que neste momento, além de escasso, está caro. Não posso deixar faltar EPI no hospital para deixar nas barreiras. Além disso, nós estamos com um drone com câmera térmica. Ele identifica pessoas que estão com temperatura elevada, nós vamos e aferimos novamente para acompanhar os casos. Contratamos esse serviço, que tem funcionado como espião. Colocamos no período do São João para identificar fogueiras.
 
Alô Alô Bahia -  No começo de junho, Serrinha teve um grande aumento que teve como pico, segundo o senhor próprio, uma mineradora. Como controlou essa situação?
 
Adriano Lima - A maior parte dos funcionários desta mineradora mora em Serrinha. Então, estes funcionários acabaram infectando familiares, amigos. Chegamos a ter 56% dos casos confirmados em Serrinha de pessoas relacionadas à mineradora. Aconteceu o mesmo em outras cidades, como Teofilândia, Araci. Tivemos que isolar estas pessoas e aumentar as restrições para controlar.
 
Alô Alô Bahia - O senhor falou do funcionamento alternado do comércio. Como está o diálogo com os empresários? Eles aprovam este plano?
 
Adriano Lima - Há uma compreensão, eles estão vendo que estamos tentando auxiliar. Mas os comerciantes querem que deixe aberto, mas sabem que não podemos liberar tudo. Na verdade, não vejo ninguém gostar (do funcionamento alternado). Em que local o comerciante está satisfeito? Tem ramos aberto, como os essenciais, os supermercados estão faturando muito, farmácias também. Estamos nos esforçando para proteger as pessoas. Temos um bom diálogo com a CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas), que quer uma alternativa para deixar aberto todos os dias. O correto é fechar mesmo. Todo lugar que teve bons resultados foi agressivo nessa questão do comércio.
 
Alô Alô Bahia - Como está a estrutura de saúde do município para anteder aos casos de covid-19?
 
Adriano Lima - Abrimos dez leitos de UTI. Estou com 8 pessoas internadas (em UTI), sendo um suspeito e quatro confirmados para coronavírus e três com outros problemas. Consegui mais 20 respiradores com o Ministério da Saúde e vamos ampliar o atendimento no hospital municipal. Uma preocupação que temos aqui é com o aumento dos casos em Feira de Santana, porque a sobrecarga lá vai nos sobrecarregar aqui. As pessoas de outras cidades próximas que antes iriam para Feira agora vão passar a vir para cá. Nós temos uma UTI móvel e estou montando uma segunda, e inclusive já estamos emprestando a prefeitos da região. Além disso, fizemos uma separação do hospital e transformamos em duas áreas. Pegamos as urgências e transferimos para uma entidade filantrópica. O hospital ficou para problema respiratório e emergências, como acidentes. Os 19 postos de saúde da família estão funcionando diariamente, o hospital está 24 horas.
 
Alô Alô Bahia - Qual o impacto da pandemia na arrecadação?
 
Adriano Lima - Nós estimamos uma queda na arrecadação de 40%. A sorte são essas recomposições do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) que estão sendo feitas pelo governo federal. As perdas que estamos tendo estão sendo recomposta, com 70%, 80% de recomposição. Agora, mesmo assim, já há impacto. Antes, por exemplo, eu pagava uma parcela do 13º aos servidores em junho. Esse ano não paguei ainda. Vou pagar agora em julho com o recurso do 1% do FPM (recurso extra que deve ser pago neste mês). Eu acredito que o maior impacto vai ser no ano que vem. O governo federal vai ficar complementando a arrecadação no ano que vem? Não vai. E a arrecadação não vai ser a mesma, vai reduzir bastante. Como é que vai ficar? Todos vão ter dificuldade. Vai ser uma dificuldade muito grande.
 
Alô Alô Bahia - Neste sentido, qual a solução para os municípios?
 
Adriano Lima - O futuro é cortar despesas. Vai aumentar o desemprego, porque as prefeituras vão demitir. Em cidades como Feira de Santana, Salvador, não temos muito isso, mas na maioria das cidades as prefeituras são grandes empregadoras. Serrinha por exemplo já é. O número de funcionários que a prefeitura tem, nenhuma grande empresa tem. E tem outro ponto, que é o limite de 54% de índice de pessoal. Uma prefeitura que arrecada R$ 100 milhões e gasta R$ 54 milhões com folha de pagamento, está tranquila. Mas se a arrecadação caiu 30%, você continua com a mesma folha de R$ 54 milhões. Então, vamos ter prefeito que vai responder na justiça, com conta reprovada. A maioria vai quebrar. Não tem hoje uma solução mesmo de médio e longo prazo.
 
Alô Alô Bahia - A tradicional vaquejada de Serrinha, que movimenta milhões de reais na cidade, não vai acontecer por conta da pandemia. Qual o impacto?
 
Adriano Lima - Antes da vaquejada, já teve o São João. No ano passado, o São João movimentou muito o setor hoteleiro, o entretenimento, inclusive a movimentação foi maior do que a vaquejada. Tivemos um show com Xand Avião com 60 mil pessoas. A vaquejada é uma festa particular, não é pública. Os organizadores já falaram que não tem como fazer. Então, claro que teremos um impacto muito grande. Foram dois baques pesados, o São João e a vaquejada.
 
Alô Alô Bahia - Há uma proposta do deputado estadual Tiago Correia para que as vaquejadas acontecessem com transmissão online, sem público. O senhor acha viável?
 
Adriano Lima - Tenho visto que estão fazendo provas de turfe sem público, em São Paulo ou no Rio de Janeiro. No caso de vaquejada não sei se é possível. Não sei se os donos dos estabelecimentos vão querer. Tenho dúvidas se tem viabilidade. Se chegar lá uma fiscalização e disser que tem aglomeração, é o dono do estabelecimento que vai responder. Fora que tem toda a movimentação. Na pior das hipóteses, vão ser 500, 600 caminhões. Como é que não aglomera? Não tem como.
 
Alô Alô Bahia - Qual sua opinião sobre o adiamento das eleições?
 
Adriano Lima - Foi uma decisão prudente. Não acredito que outubro tivesse segurança. Agora, para quem está na gestão será ruim, por causa da transição. Antes, você tinha outubro novembro e dezembro para arrumar o mandato, fechar as contas. Como é que vai fechar o ciclo em 30 dias, quando antes fazia em 90 dias? Vamos ter que montar uma verdadeira força-tarefa. De três meses para fechar tudo, agora será só um. E, sinceramente, não sei nem se vai ter eleição. E se a pandemia continuar avançando, será que vão manter? Eu tinha concurso marcado para abril, mas já disse que só vamos fazer depois da eleição. Vamos observar a experiência da eleição.
 
Biografia
 
Adriano Lima tem 44 anos, é médico oftalmologista e foi eleito para o seu primeiro mandato como prefeito de Serrinha nas eleições de 2016. Antes, já havia disputado as eleições para prefeito em 2012, mas terminou na segunda posição. Foi eleito pelo PMDB, mas no ano passado ingressou no PP.
 
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2 Jul 2020

“Em nossa cidade, o problema não é o comércio em si”, diz prefeito de Eunápolis

Após atravessar uma fase de grande aumento nos casos de covid-19 no início de junho, com até 40 casos diários, o município de Eunápolis passa por dias mais tranquilos e parece ter chegado ao topo da contaminação. Quem avalia é o prefeito Robério Oliveira (PSD). O crescimento diário de novos casos está hoje em cerca de 2,3%, com algo em torno de 15 a 20 novas infecções.

O comércio do município tem funcionado seguindo regras definidas pela prefeitura. E, na avaliação do prefeito, o comércio em si não é um problema na cidade, mas sim a “falsa sensação de normalidade que sua abertura causa nas pessoas”, uma vez que o número de pessoas nas ruas aumenta além do normal.

Para Oliveira, o fato de o município ser um polo comercial no Extremo Sul da Bahia e ser cortado pela BR-101 foi decisivo para o aumento dos casos na cidade. Segundo o prefeito, o impacto da pandemia nas contas municipais já supera os R$ 13 milhões. Ele diz que o município segue um plano de retomada gradual das atividades econômicas e só pode falar em volta total após análises científicas.

O prefeito, contudo, evitou comentar sobre a possibilidade de adiamento das eleições deste ano e disse que está focado no combate à pandemia.

 

Apesar do alto número de casos confirmados em Eunápolis (são 674 infecções), a cidade já tem 568 recuperados. O senhor acredita que Eunápolis já superou a fase crítica da doença? Como avalia a situação hoje?

 

Robério Oliveira - De acordo com nossas análises já chegamos ao topo da contaminação com uma média de 40 casos diários, quando permanecemos em ascendência por cerca de uma semana. Com as medidas adotadas, agora estamos em queda, com crescimento diário de 2,3%, em números entre 15 e 20 pacientes confirmados por dia. Porém, não podemos baixar a guarda. A preocupação é o sentimento de que as coisas estão normalizadas, porque não estão. Este é o momento de ampliarmos os cuidados para que possamos então vencer esta doença e não termos um novo pico.

 

No começo do mês de junho, o governador Rui Costa chegou a classificar a situação do município como preocupante, com um crescimento médio diário de 12%. Quais medidas foram tomadas para contornar a situação?

 

Robério Oliveira - Quando nossa curva começou a subir demais, tivemos que adotar medidas mais rigorosas. Determinamos então o toque de recolher a partir das 20h (que mantemos até hoje) e prorrogamos a suspensão das atividades comerciais na cidade, aumentando assim o índice de isolamento social no município. Na saúde, descentralizamos o atendimento para todas as Unidades Básicas de Saúde para facilitar o acesso ao diagnóstico e tratamento para a população; realizamos blitz constantes de conscientização quanto ao uso de máscaras, com aferição de temperatura corporal; e ampliamos a testagem, inclusive na zona rural, sendo a cidade da região com maior número de testes realizados. Assim, conseguimos isolar os pacientes confirmados e reduzir o contágio.

 

Quais fatores o senhor acredita que influenciaram no aumento dos casos em Eunápolis?

 

Robério Oliveira - Eunápolis é um polo comercial da região, aqui temos empresas que atendem todo o Sul da Bahia, e foi assim que o vírus chegou ao nosso município, cinco colaboradores de uma empresa de transporte de valores se contaminaram em alguma cidade da região em que estiveram e trouxeram para o município, contaminando familiares e amigos. Somado a isso, somos uma cidade cortada pela 2ª maior rodovia do país - a BR-101 -, o que torna inviável o fechamento do acesso ao nosso município.

 

Hoje, 16 pessoas estão internadas. Qual a estrutura de leitos clínicos e de UTI para atender estas pessoas que necessitam de atendimento?

 

Robério Oliveira - Em parceria com o Governo do Estado estamos instalando um Hospital de Campanha em nosso município com 20 leitos de UTI e 20 leitos clínicos. Antes disso preparamos uma ala em nosso Hospital Regional com 6 leitos com respiradores para estabilizar os nossos pacientes antes de encaminhá-los às UTI’s de referência.

 

Qual foi o impacto da pandemia nas finanças do município? Qual foi a redução na arrecadação, tanto a própria quanto em relação às transferências?

 

Robério Oliveira - Nossa previsão de queda nas arrecadações é superior a R$ 38 milhões. O levantamento realizado pelo município mostrou que, nos meses de abril e maio de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, houve uma significativa queda de arrecadação de mais de R$ 6 milhões, e se comparado às previsões orçamentárias para estes dois meses do ano, o prejuízo chega a mais de R$ 13 milhões de reais.

 

O senhor chegou a flexibilizar o comércio na cidade. Como avaliou o impacto da abertura na transmissão do coronavírus?

 

Robério Oliveira - Identificamos em nossa cidade que o problema não é o comércio em si, pois os comerciantes estão adotando todos os cuidados necessários, o que se justifica que estamos com o comércio aberto e já percebemos a diminuição na taxa de contaminação. Antes da flexibilização das atividades comerciais, me reuni com representantes de vários seguimentos do comércio e apresentei a eles todo o panorama da pandemia em nosso município com um diálogo franco e aberto. Eles entenderam a gravidade da situação e viram meu esforço em buscar um equilíbrio, sempre embasado em informações científicas. Mas ainda enfrentamos um problema grande que é a falsa sensação de normalidade que sua abertura causa nas pessoas, ou seja, o número de pessoas nas ruas aumenta além do normal, por isso investimos em campanhas de conscientização e aumentamos a fiscalização, para mostrar à população que mesmo com o comércio aberto, vivemos uma pandemia e precisamos adotar todos os cuidados necessários. Não é porque o comércio está aberto que a pessoa precisa sair de casa sem necessidade.

 

O município já trabalha com protocolos de retomada total das atividades econômicas?

 

Robério Oliveira - Por enquanto nosso decreto vigente é de retomada gradativa. Só poderemos falar sobre retomada total após termos a análise científica dos nossos técnicos de saúde sobre os impactos dessa retomada em nossa curva de contaminação.

 

Até o dia 16 Eunápolis tinha 14 casos de coronavírus em cinco agências da cidade. O senhor acredita que, devido ao grande fluxo de pessoas em bancos, isso pode ter ajudado a propagar o vírus? Como o município lidou com essa questão?

 

Robério Oliveira - A quantidade de pessoas nas agências bancárias é algo que nos preocupou desde o início da pandemia e por isso determinamos o número de pessoas que teriam acesso às agências, proibimos a entrada de crianças, delimitamos o distanciamento nas filas de acesso aos bancos, capacitamos nossos servidores públicos para o controle das filas e buscamos garantir o distanciamento social. Para maior segurança da população que precisava receber o Auxílio Emergencial, montamos também uma grande estrutura com cobertura, assentos higienizados delimitando o distanciamento, banheiros químicos, distribuição de máscara e higienização constante das mãos.

 

Por fim, teremos eleições este ano e muito tem se falado sobre a possibilidade de adiamento. O senhor concorda com o adiamento das eleições? Se sim, por quanto tempo?

 

Robério Oliveira - Acredito que este não é o momento de pensarmos em eleição. Todos os meus esforços estão concentrados no combate à Covid-19, minha preocupação hoje é salvar vidas. Minha visão quanto à realização das eleições é que tudo seja definido baseado em informações técnicas e científicas neste momento de combate à pandemia. Independente de quando forem realizadas, estarei preparado para disputá-la. Isso não é uma prioridade para mim no momento.

 

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