Entrevistas


06 Set 2017

Estilo de vida! Conheça o apê baiano de Marcelo Kruschewsky

Estilo de vida! Conheça o apê baiano de Marcelo Kruschewsky


Abrir a casa de Marcelo Kruschewsky é como viajar pelo mundo. O olhar apurado não apenas para o belo – como também para o exótico e o inusitado - está em cada canto do apartamento, que fica no icônico Edifício Oceania. O gigante art déco da década de 30, que marca a esquina da Avenida Oceânica, está povoado no imaginário daqueles que, como Marcelo, apreciam uma boa obra de arte. Foi lá que escolheu morar 20 anos atrás, quando o playboy e solteiro convicto Dr. Clóvis Ribeiro resolveu vender o apartamento. Do antigo morador restaram alguns itens mantidos pelo novo, como o lustre da sala principal. Da casa da mãe vieram outros tantos, como o bar, mesa de jantar setentistas e a cadeira de charme em jacarandá. Foram muitas paredes quebradas até o layout preservado até hoje, num tempo em que as pessoas não sabiam sequer pronunciar ‘loft’. Era ‘soft’ aquele estilo de viver tão fora dos padrões da cidade, inédito para aqueles tempos. Em 185m2, Marcelo manteve apenas 2 das suítes, arranjo perfeito para seu ‘lifestyle’, que na época era ‘estilo de vida’.

        Os 6 anos de estudo em Design Gráfico, na Inglaterra, foram fundamentais para a visão da humanidade que Marcelo tem. De lá, onde conheceu o companheiro, ganhou o mundo e foi parar em Nova York, onde sua arte  alcançou todos os lugares. Hoje vive entre a França e os EUA, alternando com o Brasil, 4 meses do ano em cada um desses lugares. A casa de campo em Bordeaux, seu endereço francês, é prática e sem empregados. Apenas um jardineiro auxilia o casal nas tarefas mais pesadas. A rotina de garimpo é intensa, levando tecidos suzani, seu achado no Uzbequistão, para as fábricas em Saigon, no Vietnã, para produzir suas peças mais famosas, os puffs. Do Vietnã, Marcelo guarda o jeito dócil, tranquilo e o cuidado no produzir. Em Nova York seus olhos brilham, sobretudo quando diz do respeito à sua arte, já quando ganhou seu visto de habilidade extraordinária, o direito de permanência no país.
Apaixonado por Picasso, Marcelo fez da sua casa um pouso leve, arejado e, mesmo assim, cheio de sua personalidade, e abrigou gente como Júlia Roberts, Calvin Klein e Caetano Veloso. Suas memórias remontam a um tempo em que a Bahia era outra, como faz questão de frisar. Era a Bahia anarquista, com uma Barra – seu lugar – cheio de identidade, clima boêmio, com bistrôs e comércio de rua pungente, vivo e diverso. E bem diferente do que se vê hoje. “Era como um balneário de luxo”, lembra triste. “Vivemos uma Barra sem lei de estilo, isso precisa ser revertido. O mar e o sol daqui continuam deslumbrantes”, pondera. Também esclarece que a situação atual não é apenas culpa da administração local, mas também da população, que precisa rever a cultura de shopping, que tomou o lugar na vida das pessoas. “Os baianos são diferentes de tudo, precisam explorar essa identidade tão forte. Nós misturamos Dior com figas de candomblé e fitas do Bonfim”, finaliza.

         Em sua casa, Marcelo coleciona tudo que é bom e bonito. São arandelas (as mais bacanas), cabeças africanas de Mali, tecidos, castiçais, e tudo mais que houver. As poltronas, originais dos anos 70, vieram do antigo Banco Econômico da Cidade Baixa, descobertos durante uma Casa Cor que aconteceu lá perto. São mobiliário corporativo clássico, os eternos clássicos que Marcelo gosta de dizer que as pessoas não valorizavam. A escultura em pedra veio de uma escavação em Maragojipe, descoberta do irmão, que trabalhava com terraplanagem. O cacto, que ele ganhou da amiga Ângela Góes, arquiteta morta no ano passado, tem lugar de destaque, dentro do vaso vietnamita, presente de outra querida amiga, Biga Suarez. Não usa cortinas em casa, gosta de passar o maior tempo possível na luz, como se não fosse ele mesmo uma luz.
Nessa tarde de terça chuvosa, quando Marcelo nos recebeu, já estava programando seu retorno aos EUA para o final desse mês, quando deve retomar sua maratona de feiras de produtos até janeiro. Vai também matar a saudade de Glória Vitória, sua schnauzer, o único filho que escolheu ter nessa vida.
   Fotos: Alô Alô Bahia. Siga o insta @sitealoalobahia

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